Relato publicado originalmente no site do Erro Zine, por Raphael Sanz.
“Clima e natureza não se negociam, não existe capitalismo verde, não existe compensação de carbono”. Veja ensaio fotográfico, relato e depoimentos da mobilização.

Na manhã do último sábado (26) algumas centenas de pessoas participaram da Marcha pelo Clima de Florianópolis. A concentração começou oficialmente às 10 da manhã no Largo da Alfândega – importante espaço do centro da cidade, próximo ao terminal de ônibus (Ticen) e ao Mercado Municipal. Mas antes do horário previsto já tinha gente ali confeccionando cartazes e trocando mudas de plantas nativas.
A organização foi feita por alguns movimentos e coletivos socioambientais, como a Tecendo Redes, o Coletivo Ecolhar, a Rede de Mulheres Ecológicas – Serramar/SC e o Instituto de Formação Popular Caeté. Também estavam ONGs como a Cáritas, a Arayara, e o Fórum de Mudanças Climática e Justiça Socioambiental. Ainda marcaram presença diversos indivíduos oriundos dos movimentos de bairro e de defesa de espaços públicos e áreas de preservação ligados (ou não) ao Fórum da Cidade (como o Movimento Ponta do Coral 100% Pública e do Parque da Luz), e algumas comunidades, como os Guarani da Terra Indígena Morro dos Cavalos e lideranças do Quilombo Vidal Martins.

As pautas são as mais variadas e urgentes que se possa imaginar. Começa com as adaptações às mudanças climáticas que urgem nas grandes cidades catarinenses, especialmente em Florianópolis, e cujo embate com os especuladores imobiliários que controlam a política local faz com que não se tenha saído da estaca zero. Preservação de parques e áreas verdes, expansão das áreas de proteção permanente, reflorestamento, demarcação definitiva de territórios indígenas e quilombolas, não construção da “megalo”marina na Baía Norte, insubmissão ao agronegócio que polui e envenena o solo… são muitas as pautas e cada uma merecia um desenvolvimento exclusivo que hoje, infelizmente, não caberá.
A concentração no Largo da Alfândega durou cerca de duas horas. Com falas das organizações e comunidades presentes, e apresentações de artistas locais e de rezo dos Guarani do Morro dos Cavalos.

“Salve, salve, meu nome é Alka, faço parte do Movimento Céuvas, faço parte da equipe Kerexu, lutando nessa marcha pelo clima. A minha performance se chama Pachamama Berra, é um rap que relata a luta: “a luta não é só por mim, é pelos rios, a luta não é só por nós, é pela terra. Pachamama Berra, que é a nossa mãe terra”. Ela está berrando, ela está gritando, ela está falando faz tempo. Então a gente precisa ouvir, criar e ser essa mudança”.


Rafael Machado é um dos organizadores e assentado da Reforma Agrária na Comuna Amarildo de Souza, em Águas Mornas – assentamento ligado à Teia dos Povos que nasceu como uma ocupação urbana em 2013, em Floripa. Também participa do Instituto de Formação Popular Caeté, uma ONG criada há três anos pelo próprio assentamento.
“O que presenciamos é um colapso ambiental, uma situação que afeta toda a sociedade, toda a espécie humana, todas as espécies, e afeta especialmente o povo da periferia, os povos ancestrais, o povo quilombola, o povo que luta por moradia, o povo do campo. As pessoas comuns não têm recursos para combater ou se adaptar individualmente, e acabamos sofrendo então os maiores danos, perdas e a maior quantidade de mortes. Precisamos nos unir para lutar contra isso. E uma das formas de organização de luta que a gente encontrou é a da marcha pelo clima aqui em Florianópolis”, afirma.

Ele conta que a marcha é construída de maneira popular e rejeita a pecha elitista comumente colada nos movimentos ambientais pelos seus detratores. Destaca que a iniciativa foi proposta por um conjunto de entidades de forma horizontal, sem fins político partidários, mas que tem o fim de organizar as comunidades e povos para lutar contra as mudanças climáticas, e para informar sobre os danos causados por esse quadro próprio do capitalismo contemporâneo.
“Isso é causado pela indústria de petróleo, pelo agronegócio, pela especulação imobiliária. Precisamos construir uma outra forma de sociabilidade. A Marcha pelo Clima é realizada mundialmente próxima ao equinócio da primavera, quando começam grandes épocas de plantio, então a gente tem que plantar essa nova sociabilidade, e é por isso que estão todas essas comunidades aqui. A grande questão é que já passamos o limite de um grau Celsius estabelecido no acordo de Paris e estamos chegando perto dos dois graus. Justamente porque o clima não se negocia, não se negocia com a natureza. Não existe capitalismo verde, não existe compensação de carbono. O que a gente tem que fazer é trocar o modelo de desenvolvimento”, completou.

Me chamo Baré, sou uma das lideranças Casa de Passagem e Ponto de Cultura Indígena Goj Ta Sa, localizado no bairro Saco dos Limões. Sou comunicador audiovisual do ponto de cultura, estudante de enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, represento a comunidade de extensão de indígenas e quilombolas da universidade, levando a nossa luta pela reivindicação de direitos, pela dignidade de moradia, pela preservação ambiental, água, floresta e a luta pela luta com o clima. A todos, eu agradeço e vamos seguir essa luta. A natureza está falando com a gente e a solução, como foi dito pelos camaradas e pelas comunidades, a solução está aqui. Nós somos a solução.

Kerexu Yxapyry é uma figura muito importante em Florianópolis e em Santa Catarina. Educadora e liderança da Terra Indígena Morro dos Cavalos, ela é uma das responsáveis pelo avanço na homologação do território, e sentiu na pele a ira dos capangas do agronegócio, por exemplo, quando sua mãe teve um membro decepado durante um ataque de pistoleiros no território. Ela contou essa história aqui. Hoje candidata a deputada federal, Kerexu estava na linha de frente da Marcha pelo Clima para exigir a demarcação do seu território.
“Nós, enquanto povos indígenas, sempre fizemos a defesa da nossa floresta, que traz esse equilíbrio do tempo, do clima, de tudo. Da vida. E a gente sempre fez essa defesa da vida com o nosso modo de vida. Agora está chegando o Super El Niño e toda semana nós temos várias destruições dos ventos, dos furacões, dos ciclones que passam, dos granizos, e precisamos agir. Cuidar dos nossos territórios por um lado e, por outro, combater os crimes ambientais que são cometidos diariamente e em grande escala”, avaliou.

Kerexu lamenta a completa ausência de políticas para adaptação às mudanças climáticas e reforça a importância da demarcação das terras indígenas e o papel dos povos no contexto atual. Também deixa um alerta sobre a urgência de derrotarmos coletivamente a tese do marco temporal.
Nós somos 5% da população do mundo. E nós somos responsáveis por proteger mais de 80% da biodiversidade. Hoje nós estamos nessa linha de frente de sermos os guardiões, mas ao mesmo tempo somos atacados e violentados, assim como as nossas florestas estão sofrendo. Então, tudo isso que nós estamos fazendo é pelo bem da essência da vida, que é onde você consegue a água potável, o alimento saudável, a medicina que cura e o ar para respirar. E é justamente o que todos nós, seres vivos, precisamos para poder fazer as nossas coisas. E é justamente esse lugar dos territórios indígenas que hoje está no debate, no centro do debate do Brasil, pela tese do marco temporal. Tem o PDL que foi criado pelo senador Esperidião Amin para anular o decreto de homologação da Terra Indígena Morro dos Cavalos. A armadilha está no artigo 2 do decreto 1775, que ele quer tirar. E isso significa a paralisação das demarcações de terras no Brasil”, alertou.

John Wurdig, engenheiro ambiental, representava a Arayara, ONG de litigância climática e ambiental nascida no Sul do país. Ele chama a atenção para as termoelétricas, o fracking e o recente anúncio de mais um leilão do petróleo e gás. Temas que merecem uma abordagem mais específica no futuro, mas que citamos adiante, resumindo o seu depoimento.
“Hoje Santa Catarina tem o complexo termoelétrico de Jorge Lacerda, a maior termoelétrica a carvão mineral da América Latina. A gente está falando de quatro usinas juntas que até 2025 recebiam subsídio para a compra desse carvão, quase um bilhão de reais, e conseguiram a manobra através de muito lobby no governo Bolsonaro. Implementaram a lei de transição energética que previu a contratação dessa usina, e tem uma roupagem nisso tudo que seria garantir o emprego para o trabalhador mineiro, mas isso não é verdade. O dinheiro vai exclusivamente para a Diamante Energia, que não tem se responsabilizado pelos passivos ambientais, e para as mineradoras que declaram falência. Além disso a Agência Nacional de Petróleo está colocando agora no dia 7 de outubro um leilão, ou seja, a venda de blocos de petróleo para compra privada, e nós temos mais de 120 blocos aqui na bacia de Santa Catarina. O que mais nos impacta é que alguns desses lotes estão a 57 quilômetros da costa. Uma proximidade muito assustadora”.

O Quilombo Vidal Martins também fez uma fala, mais ou menos na mesma linha do que falamos num artigo anterior.

Feitas as apresentações e as falas, saímos por uma rápida caminhada pelo centro. Poucas quadras entre as ruas Deodoro, Felipe Schimdt e a Praça XV, até o retorno ao ponto de partida. As palavras de ordem variaram entre “Ilha da Magia é do povo e não da burguesia”, “Nós somos a solução” e “Com capitalismo/agronegócio/especulação imobiliária não tem clima”.



O capitalismo não tem mais condição nenhuma de enfrentar a crise climática. Ele está acabando com a ONU, está acabando com todos os tratados internacionais, inclusive aqueles que o Brasil é signatário. Esse é o quadro geral. Por isso, o simbólico da nossa resistência aqui é maior ainda. Nesse contexto, nós estamos com uma meia dúzia de gatos pingados com a palavra, com o microfone, para mostrar uma alternativa ao capitalismo devorador do planeta. O que nós queremos mostrar aqui é que quem cuida do clima defende restringir a produção de energia. Nós não podemos mais continuar queimando petróleo. Nós temos que acabar com os combustíveis fósseis.
Ao final da marcha, por volta das 13h30, a sensação entre os organizadores remanescentes era de vitória em relação às expectativas anteriores. A impressão é de que, de fato, esse é um movimento que tende a ganhar corpo. Não só em Florianópolis. Mas em todo o mundo.
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