Relato publicado originalmente no site do Erro Zine, por Raphael Sanz.

“Clima e natureza não se negociam, não existe capitalismo verde, não existe compensação de carbono”. Veja ensaio fotográfico, relato e depoimentos da mobilização.

Kerexu Yxapyry (Terra Indígena Morro dos Cavalos) e Helena Oliveira (Quilombo Vidal Martins) na linha de frente da Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Na manhã do último sábado (26) algumas centenas de pessoas participaram da Marcha pelo Clima de Florianópolis. A concentração começou oficialmente às 10 da manhã no Largo da Alfândega – importante espaço do centro da cidade, próximo ao terminal de ônibus (Ticen) e ao Mercado Municipal. Mas antes do horário previsto já tinha gente ali confeccionando cartazes e trocando mudas de plantas nativas.

A organização foi feita por alguns movimentos e coletivos socioambientais, como a Tecendo Redes, o Coletivo Ecolhar, a Rede de Mulheres Ecológicas – Serramar/SC e o Instituto de Formação Popular Caeté. Também estavam ONGs como a Cáritas, a Arayara, e o Fórum de Mudanças Climática e Justiça Socioambiental. Ainda marcaram presença diversos indivíduos oriundos dos movimentos de bairro e de defesa de espaços públicos e áreas de preservação ligados (ou não) ao Fórum da Cidade (como o Movimento Ponta do Coral 100% Pública e do Parque da Luz), e algumas comunidades, como os Guarani da Terra Indígena Morro dos Cavalos e lideranças do Quilombo Vidal Martins.

Marcha pelo Clima. Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

As pautas são as mais variadas e urgentes que se possa imaginar. Começa com as adaptações às mudanças climáticas que urgem nas grandes cidades catarinenses, especialmente em Florianópolis, e cujo embate com os especuladores imobiliários que controlam a política local faz com que não se tenha saído da estaca zero. Preservação de parques e áreas verdes, expansão das áreas de proteção permanente, reflorestamento, demarcação definitiva de territórios indígenas e quilombolas, não construção da “megalo”marina na Baía Norte, insubmissão ao agronegócio que polui e envenena o solo… são muitas as pautas e cada uma merecia um desenvolvimento exclusivo que hoje, infelizmente, não caberá.

A concentração no Largo da Alfândega durou cerca de duas horas. Com falas das organizações e comunidades presentes, e apresentações de artistas locais e de rezo dos Guarani do Morro dos Cavalos.

Apresentação de rezo dos Guarani da TI Morro dos Cavalos. Marcha pelo Clima de Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

“Salve, salve, meu nome é Alka, faço parte do Movimento Céuvas, faço parte da equipe Kerexu, lutando nessa marcha pelo clima. A minha performance se chama Pachamama Berra, é um rap que relata a luta: “a luta não é só por mim, é pelos rios, a luta não é só por nós, é pela terra. Pachamama Berra, que é a nossa mãe terra”. Ela está berrando, ela está gritando, ela está falando faz tempo. Então a gente precisa ouvir, criar e ser essa mudança”.

Alka, durante sua apresentação na Marcha pelo Clima. Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz
Apresentação de rezo Guarani, da TI Morro dos Cavalos. Marcha pelo Clima de Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Rafael Machado é um dos organizadores e assentado da Reforma Agrária na Comuna Amarildo de Souza, em Águas Mornas – assentamento ligado à Teia dos Povos que nasceu como uma ocupação urbana em 2013, em Floripa. Também participa do Instituto de Formação Popular Caeté, uma ONG criada há três anos pelo próprio assentamento.

“O que presenciamos é um colapso ambiental, uma situação que afeta toda a sociedade, toda a espécie humana, todas as espécies, e afeta especialmente o povo da periferia, os povos ancestrais, o povo quilombola, o povo que luta por moradia, o povo do campo. As pessoas comuns não têm recursos para combater ou se adaptar individualmente, e acabamos sofrendo então os maiores danos, perdas e a maior quantidade de mortes. Precisamos nos unir para lutar contra isso. E uma das formas de organização de luta que a gente encontrou é a da marcha pelo clima aqui em Florianópolis”, afirma.

Rafael Machado na Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Ele conta que a marcha é construída de maneira popular e rejeita a pecha elitista comumente colada nos movimentos ambientais pelos seus detratores. Destaca que a iniciativa foi proposta por um conjunto de entidades de forma horizontal, sem fins político partidários, mas que tem o fim de organizar as comunidades e povos para lutar contra as mudanças climáticas, e para informar sobre os danos causados por esse quadro próprio do capitalismo contemporâneo.

“Isso é causado pela indústria de petróleo, pelo agronegócio, pela especulação imobiliária. Precisamos construir uma outra forma de sociabilidade. A Marcha pelo Clima é realizada mundialmente próxima ao equinócio da primavera, quando começam grandes épocas de plantio, então a gente tem que plantar essa nova sociabilidade, e é por isso que estão todas essas comunidades aqui. A grande questão é que já passamos o limite de um grau Celsius estabelecido no acordo de Paris e estamos chegando perto dos dois graus. Justamente porque o clima não se negocia, não se negocia com a natureza. Não existe capitalismo verde, não existe compensação de carbono. O que a gente tem que fazer é trocar o modelo de desenvolvimento”, completou.

Baré na Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Me chamo Baré, sou uma das lideranças Casa de Passagem e Ponto de Cultura Indígena Goj Ta Sa, localizado no bairro Saco dos Limões. Sou comunicador audiovisual do ponto de cultura, estudante de enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, represento a comunidade de extensão de indígenas e quilombolas da universidade, levando a nossa luta pela reivindicação de direitos, pela dignidade de moradia, pela preservação ambiental, água, floresta e a luta pela luta com o clima. A todos, eu agradeço e vamos seguir essa luta. A natureza está falando com a gente e a solução, como foi dito pelos camaradas e pelas comunidades, a solução está aqui. Nós somos a solução.

Marcha pelo Clima de Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Kerexu Yxapyry é uma figura muito importante em Florianópolis e em Santa Catarina. Educadora e liderança da Terra Indígena Morro dos Cavalos, ela é uma das responsáveis pelo avanço na homologação do território, e sentiu na pele a ira dos capangas do agronegócio, por exemplo, quando sua mãe teve um membro decepado durante um ataque de pistoleiros no território. Ela contou essa história aqui. Hoje candidata a deputada federal, Kerexu estava na linha de frente da Marcha pelo Clima para exigir a demarcação do seu território.

“Nós, enquanto povos indígenas, sempre fizemos a defesa da nossa floresta, que traz esse equilíbrio do tempo, do clima, de tudo. Da vida. E a gente sempre fez essa defesa da vida com o nosso modo de vida. Agora está chegando o Super El Niño e toda semana nós temos várias destruições dos ventos, dos furacões, dos ciclones que passam, dos granizos, e precisamos agir. Cuidar dos nossos territórios por um lado e, por outro, combater os crimes ambientais que são cometidos diariamente e em grande escala”, avaliou.

Kerexu Yxapyry na Marcha pelo Clima de Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Kerexu lamenta a completa ausência de políticas para adaptação às mudanças climáticas e reforça a importância da demarcação das terras indígenas e o papel dos povos no contexto atual. Também deixa um alerta sobre a urgência de derrotarmos coletivamente a tese do marco temporal.

Nós somos 5% da população do mundo. E nós somos responsáveis por proteger mais de 80% da biodiversidade. Hoje nós estamos nessa linha de frente de sermos os guardiões, mas ao mesmo tempo somos atacados e violentados, assim como as nossas florestas estão sofrendo. Então, tudo isso que nós estamos fazendo é pelo bem da essência da vida, que é onde você consegue a água potável, o alimento saudável, a medicina que cura e o ar para respirar. E é justamente o que todos nós, seres vivos, precisamos para poder fazer as nossas coisas. E é justamente esse lugar dos territórios indígenas que hoje está no debate, no centro do debate do Brasil, pela tese do marco temporal. Tem o PDL que foi criado pelo senador Esperidião Amin para anular o decreto de homologação da Terra Indígena Morro dos Cavalos. A armadilha está no artigo 2 do decreto 1775, que ele quer tirar. E isso significa a paralisação das demarcações de terras no Brasil”, alertou.

Marcha pelo Clima de Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

John Wurdig, engenheiro ambiental, representava a Arayara, ONG de litigância climática e ambiental nascida no Sul do país. Ele chama a atenção para as termoelétricas, o fracking e o recente anúncio de mais um leilão do petróleo e gás. Temas que merecem uma abordagem mais específica no futuro, mas que citamos adiante, resumindo o seu depoimento.

“Hoje Santa Catarina tem o complexo termoelétrico de Jorge Lacerda, a maior termoelétrica a carvão mineral da América Latina. A gente está falando de quatro usinas juntas que até 2025 recebiam subsídio para a compra desse carvão, quase um bilhão de reais, e conseguiram a manobra através de muito lobby no governo Bolsonaro. Implementaram a lei de transição energética que previu a contratação dessa usina, e tem uma roupagem nisso tudo que seria garantir o emprego para o trabalhador mineiro, mas isso não é verdade. O dinheiro vai exclusivamente para a Diamante Energia, que não tem se responsabilizado pelos passivos ambientais, e para as mineradoras que declaram falência. Além disso a Agência Nacional de Petróleo está colocando agora no dia 7 de outubro um leilão, ou seja, a venda de blocos de petróleo para compra privada, e nós temos mais de 120 blocos aqui na bacia de Santa Catarina. O que mais nos impacta é que alguns desses lotes estão a 57 quilômetros da costa. Uma proximidade muito assustadora”.

John Wurdig na Marcha pelo Clima de Florianópolis, 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

O Quilombo Vidal Martins também fez uma fala, mais ou menos na mesma linha do que falamos num artigo anterior.

Lideranças do Quilombo Vidal Martins na Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

Feitas as apresentações e as falas, saímos por uma rápida caminhada pelo centro. Poucas quadras entre as ruas Deodoro, Felipe Schimdt e a Praça XV, até o retorno ao ponto de partida. As palavras de ordem variaram entre “Ilha da Magia é do povo e não da burguesia”, “Nós somos a solução” e “Com capitalismo/agronegócio/especulação imobiliária não tem clima”.

A Drag Urbana na Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz
Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz
O ambientalista Gert Schinke na Marcha pelo Clima de Florianópolis. 26/09/2026. Créditos: Raphael Sanz

O capitalismo não tem mais condição nenhuma de enfrentar a crise climática. Ele está acabando com a ONU, está acabando com todos os tratados internacionais, inclusive aqueles que o Brasil é signatário. Esse é o quadro geral. Por isso, o simbólico da nossa resistência aqui é maior ainda. Nesse contexto, nós estamos com uma meia dúzia de gatos pingados com a palavra, com o microfone, para mostrar uma alternativa ao capitalismo devorador do planeta. O que nós queremos mostrar aqui é que quem cuida do clima defende restringir a produção de energia. Nós não podemos mais continuar queimando petróleo. Nós temos que acabar com os combustíveis fósseis.

Ao final da marcha, por volta das 13h30, a sensação entre os organizadores remanescentes era de vitória em relação às expectativas anteriores. A impressão é de que, de fato, esse é um movimento que tende a ganhar corpo. Não só em Florianópolis. Mas em todo o mundo.


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Vamos pras ruas pelo clima! Justiça climática exige mudar o modelo de desenvolvimento

Publicado originalmente Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

A crise climática não é apenas uma questão ambiental. Ela atravessa a moradia, o acesso à terra, o trabalho, a desigualdade social e a própria forma como as cidades e os territórios são ocupados. É a partir dessa compreensão que movimentos e organizações sociais levam às ruas de Florianópolis, neste sábado (26), a Marcha pelo Clima, com concentração às 10h, no Largo da Alfândega. A mobilização integra um chamado mais amplo e tem como lema “Com o capitalismo não tem clima. A resposta somos nós”.

Em entrevista ao JTT, Marcos Tramontin Serafim, da Cáritas Brasileira Regional Santa Catarina; Rafael Machado do Livramento, assentado da reforma agrária e integrante do Instituto de Formação Popular Caeté; e Lucy Pina, artista, professora e militante do Tecendo Redes, discutiram os motivos da mobilização e a dimensão social da emergência climática.

Do clima à justiça climática

A marcha tem uma história que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Segundo Rafael, o movimento ganhou dimensão internacional a partir de 2007, durante a COP13, na Indonésia, quando manifestações passaram a pressionar por respostas à elevação da temperatura do planeta. No Brasil, a mobilização ganhou força, especialmente a partir de 2019, em meio aos grandes incêndios na Amazônia.

Em Florianópolis, a proposta é transformar a preocupação ambiental em mobilização popular. A organização local define a marcha como um espaço de conscientização e pressão diante da emergência climática e do que os participantes identificam como colapso ambiental.

Mas a palavra-chave é justiça climática.

Para Lucy, não é possível separar a crise ambiental da história de desigualdade brasileira. Ela relacionou a discussão climática à exploração histórica de populações negras, indígenas e trabalhadoras e à concentração da terra.

A questão fundiária aparece, nesse raciocínio, como parte inseparável da questão ambiental. Na entrevista, Lucy apontou a concentração da terra nas mãos do agronegócio como um dos fatores relacionados à devastação ambiental e defendeu que a justiça climática também precisa incorporar reparação histórica e democratização do acesso à terra.

Quando a enchente chega, ela não atinge todos da mesma maneira

Em Santa Catarina, onde enchentes, deslizamentos e secas têm marcado a realidade recente, a desigualdade aparece também na forma como os eventos extremos atingem a população.

Marcos trouxe para a conversa a experiência da Cáritas com populações em situação de vulnerabilidade. Segundo ele, os impactos de enchentes e deslizamentos recaem especialmente sobre pessoas empobrecidas, populações negras e moradores de áreas periféricas e ambientalmente vulneráveis.

A moradia é um dos pontos de conexão.

A especulação imobiliária, conforme a análise apresentada na entrevista, empurra parcelas da população para áreas mais vulneráveis, próximas a rios, encostas ou regiões com infraestrutura insuficiente. Assim, o desastre climático não começa necessariamente quando a chuva cai: ele também é produzido pelas condições sociais e territoriais que definem onde cada pessoa consegue viver.

A marcha, portanto, pretende também pressionar o poder público pela criação e implementação de políticas capazes de enfrentar essas desigualdades. Para Marcos, mobilizações desse tipo têm justamente a função de tornar visíveis problemas que atingem comunidades inteiras e incidir sobre as decisões públicas.

Terra não é apenas mercadoria

A crítica ao modelo de desenvolvimento aparece como um dos eixos centrais da mobilização.

Rafael questionou uma concepção de desenvolvimento baseada na transformação da terra em mercadoria, seja pela expansão do agronegócio, seja pela especulação imobiliária. Na entrevista, relacionou essa lógica a diferentes conflitos territoriais existentes em Santa Catarina.

Essa perspectiva também aparece no chamado oficial da marcha, que relaciona a defesa do território às lutas indígenas, quilombolas, de pescadores, de trabalhadores sem teto e contra projetos de expansão imobiliária no litoral. A organização afirma que a proposta é aproximar diferentes lutas que muitas vezes aparecem separadas.

A ideia é deslocar o debate climático de uma questão exclusivamente ambiental para um terreno mais amplo: quem controla a terra, quem decide sobre o território e quem paga o preço da degradação ambiental?

Não basta “esverdear” o sistema

O lema da marcha — “Com o capitalismo não tem clima” — explicita a crítica dos movimentos ao modelo econômico dominante.

Na entrevista, Rafael argumentou que não seria suficiente adaptar o sistema atual por meio de medidas ambientais pontuais. Para ele, é necessário repensar a própria concepção de desenvolvimento e a maneira como trabalho, produção e território são organizados.

Lucy levou essa reflexão ainda mais longe ao defender a necessidade de imaginar uma sociedade pós-capitalista e uma reorganização do trabalho voltada também à regeneração ambiental, à despoluição e ao fortalecimento da capacidade de resposta diante dos desastres.

Ela citou, como exemplo, a necessidade de fortalecer a Defesa Civil de Florianópolis e destacou que a dimensão do problema exige organização coletiva, solidariedade e atuação dos movimentos sociais.

A formulação resume uma das ideias centrais da conversa: não há resposta individual possível para uma crise produzida em escala social.

A política climática não termina na eleição

A entrevista também abordou o cenário eleitoral e a presença da pauta ambiental nos programas dos candidatos.

Os entrevistados mencionaram candidaturas que, segundo eles, demonstram maior sensibilidade às questões indígenas e ambientais, mas também avaliaram que a pauta ainda aparece de maneira insuficiente nos programas políticos.

Rafael argumentou que mesmo setores identificados com a esquerda precisariam aprofundar a discussão sobre o modelo de desenvolvimento. Segundo ele, avanços existentes ainda não seriam suficientes diante da dimensão da crise ambiental.

Marcos colocou a questão em outra perspectiva: independentemente dos governos eleitos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil precisam pressionar os representantes para que a pauta climática seja incorporada às políticas públicas.

Lucy, por sua vez, chamou atenção para a distância que pode existir entre discurso eleitoral e execução de políticas, defendendo que a população organizada tenha capacidade de incidir sobre as decisões, independentemente de quem esteja no governo.

A resposta somos nós

A Marcha pelo Clima de Florianópolis acontece em um momento em que diferentes movimentos procuram aproximar as lutas por território, moradia, trabalho, preservação ambiental e direitos dos povos tradicionais.

A organização confirma a concentração para sábado, 26 de setembro, às 10h, no Largo da Alfândega, no centro de Florianópolis. A marcha integra um chamado global e reúne organizações e coletivos socioambientais da região.

Para Lucy, a mobilização é também uma forma de transformar indignação em encontro. Em sua fala final no JTT, ela sintetizou o convite à participação como a necessidade de levar a insatisfação para a rua e encontrar outras pessoas dispostas a construir uma força coletiva.

Porque, diante de uma crise que atravessa clima, território, trabalho e desigualdade, a disputa não se limita a reduzir impactos ambientais. Ela envolve decidir que sociedade se quer construir e para quem deve servir o desenvolvimento.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:

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“Cidade fantasma

No verão, movimentação

carrão e povão – tudo na contramão

O problema, na real 

é na orientação

já na rede social

ele monta uma armação

ilha da magia?

é o c*aralho meu irmão

o teto e a comida

a floresta colorida

chegar na praia pela trilha

custa mais que dez marmita

compra em dólar, compra em euro

só não compra com o cruzeiro

de quem trabalha o dia inteiro”

Poema “Cidade Fantasma”, de Estela Carvalho

A cada dia que passa, a elite de Florianópolis e a gestão municipal concretizam um projeto de cidade: transformá-la em um paraíso da especulação imobiliária, com grandes hotéis, megalo-marina e prédios de luxo. O restante da população que se vire!

Mais horas de busão, mais exploração no trabalho, salas de aula lotadas, insegurança alimentar, climática e de moradia. Quando mais precisamos da natureza para subsistir, mais ela é transformada em mercadoria pela máquina do capitalismo turbinado.

“(…) Minha ilha não quer ser Miami. Não quer abrigar esse turismo predatório que transforma tudo numa mesma coisa em troca do dinheiro fácil e rápido. Minha ilha quer continuar sendo diversa e variada, alegre e colorida”

– Trecho do Poema “Minha Ilha?”, de Fernando Alexandre

Mas dessa cidade também brotam ideias que desafiam esse modelo que vem sendo imposto. São diversas coletividades, organizadas em associações, coletivos e movimentos sociais que pensam e propõem outras formas de organizar a cidade. Da histórica luta pela Tarifa Zero, aos movimentos que defendem parques públicos e unidades de conservação, só para dar uma palinha.

A Feira de Ideias para Adiar o Fim de Floripa tem o propósito de juntar no mesmo espaço e tempo essa diversidade de movimentos. As banquinhas da feira são organizadas pelas coletividades (feirantes), que “vendem” suas ideias para quem estiver passando. Além de conversar com quem estiver passando, também queremos nos fortalecer mutuamente, tecendo redes entre feirantes.

“Como rendas de bilro são sonhos,

Tecidos, transformados a cada dia.

Tecidos em fios possíveis, fios de realidade”

– Trecho do Poema “Rendeira”, de Zeni Bannitz

Esse ano o mote da feira é “Modelos de Cidade em Disputa”. Portanto, provocamos as feirantes a se (ins)pirarem nele. Com quais espaços culturais, ecológicos, vivos, comunitários, públicos, sonhamos? Já sabemos qual o modelo que nos vêm sendo empurrado goela abaixo. Mas e nós, o que propomos para a cidade e a todas suas formas de vida? Em que cidade viverão nossas crianças?

Esta segunda edição da feira acontece na pista de Skate da Costeira do Pirajubaé, no dia 11 de outubro à partir das 14h, organizada em conjunto com o Sarau da Costeira. A pista é fruto da luta da comunidade, que batalhou para ter um espaço de lazer e convivência para a juventude em um bairro esquecido pelo poder público.

O Sarau da Costeira é um exemplo de como a comunidade organizada pode regar a vida de um espaço público. Realizado desde 2018, com mais de 27 edições, o Sarau articula diferentes grupos culturais, ocupando o território com música, biblioteca comunitária, xadrez, entre outras atividades, em um movimento antirracista e de classe.

A 29° edição do Sarau comemora o dia das crianças, e vai ter diversas atividades preparadas para elas. Portanto queremos muita brincadeira, cultura e arte popular nesta mistura! O convite também se estende aos grupos culturais da cidade. Circo, fanfarras, batalhas de rima, cineclubes, grupos de capoeira, bora pra pista e fazer dessa feira um evento caliente e alegre, para esquentar os nossos corpos neste começo de primavera em pleno super-el-ninõ.

“Os territórios de quilombos onde as cidades estão são lugares onde deveriam acontecer feiras, mas não apenas como as lojas onde você compra e depois vai embora. Feiras no entendimento de como elas são feitas na Caatinga ou no Sertão, onde a maioria das pessoas chega de manhã e só vai embora no final do dia. Há os que compram, os que vendem, os que emprestam, os que trocam e aqueles que vão só para ter notícias da comunidade, encontrar os amigos e tomar uma cachaça. Toda feira que se preze tem que ter também um cabarezinho, um espaço de boemia, de paquera, namoro e dança. As pessoas que frequentam os cabarés dançam muito bem; eles são o lugar onde se aprende a dançar e a paquerar, um lugar para viver afetos”

Livro “A terra dá, a terra quer”, de Nego Bispo, p. 28

Se interessou e quer expor na feira como feirante? Preencha o formulário abaixo!

O coletivo Sarau da Costeira está organizando a programação cultural. Então se tiver alguma proposta nesta linha manda DM através do instagram @sarau_dacosteira.

Nos vemos na 2° feira de ideias com o 29° Sarau da Costeira!

Tecendo Redes

Sarau da Costeira

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